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1.09.2006

Agostinho e a Serra da Arrábida


Era entardecer e tínhamos acabado de chegar à Serra da Arrábida, mais propriamente à estrada da serra que conduz às diversas praias, para o nosso habitual fim-de-semana de campismo selvagem na Praia dos Coelhos. Foram muitas as noites que passámos ao relento naquela praia, sem medo de contrabandistas ou ladrões, a aproveitarmos o que a Serra tem de melhor para nos oferecer: a natureza selvagem e o seu ambiente mágico, digno das histórias de Tolkien.

Estacionámos perto da entrada que dá para a Praia dos Coelhos, à beira da estrada, quando verificámos que tínhamos trazido muitas coisas e que seria necessário esperar pelo resto do pessoal para conseguirmos levar tudo para a praia (tendas, sacos-cama, fogareiro, tachos e panelas, entre outros objectos). Por isso, decidimos dividir-nos e enquanto uns desceram até à praia, já carregados com alguma tralha, os outros ficaram na berma da estrada a guardar o carro e a fazer passar o tempo, à espera dos restantes amigos que vinham a caminho num outro carro.

Estávamos sentados na beira da estrada a fumar um charro e a beber umas cervejas, o que naquela altura eram das actividades que mais tempo nos ocupavam, e não se via vivalma há um bom tempo quando passou por nós um velhote de barba e cabelos brancos, que caminhava pela estrada sozinho, cumprimentou-nos com bastante entusiasmo e continuou a andar, sem perder o ritmo da sua passada enérgica.

Ficámos todos surpresos de ver a cena e a nossa reacção automática foi acenar também ao senhor. Quando perdemos a sua figura de vista, eu fui a primeira a exclamar: “Aquele era o Agostinho da Silva!” e desencadeou-se ali logo uma pequena euforia porque todos admirávamos aquele grande pensador português, tão especial e diferente de tudo o que conhecíamos, e sabíamos que ele vivia numa pequena aldeia perto da Serra.

Decorridos poucos minutos, passou por nós um automóvel com um casal, uma senhora brasileira e um senhor português que pararam o automóvel junto a nós e perguntaram se tínhamos visto passar por ali um velhinho, a caminhar sozinho pela estrada. Respondemos prontamente que sim e indicámos a direcção que ele havia tomado. Visivelmente satisfeitos com a nossa informação despediram-se e seguiram caminho. Passado pouco tempo, regressaram os três no automóvel e desta vez, foram os três que nos acenaram com entusiasmo, gritando obrigado pela janela.

Nunca mais esqueci este episódio e durante bastante tempo arrependi-me de não ter ido falar com o velhote que passou por nós, porque tenho a certeza absoluta de que era ele, o Agostinho da Silva. Um homem que sempre considerei iluminado e cujas obras admirei e admiro, ainda hoje.

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